quinta-feira, 26 de março de 2009

"O BICHO - O OBSERVADOR"

Dados recentes da ONU revelam: "A cada dia, 24 mil pessoas morrem de fome e 100 mil (morrem) por causas relacionadas à desnutrição, o que resulta em um total de 35 milhões de mortes ao ano" (http://noticias.terra.com.br/mundo/interna/0,,OI1982614-EI294,00.html).
Deparei-me recentemente com um antigo poema de um grande amigo meu, colega de Advocacia, escrito há aproximadamente 10 anos para um trabalho escolar no período ginasial. Para que tudo fique bem entendido vou primeiro postar um famoso poema de Manuel Bandeira:


O BICHO

Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.

Rio, 27 de dezembro de 1947.
Manuel Bandeira. Estrela da Vida Inteira.
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993
(20ª ed.), pp. 201-202 e 222 (http://www.espacoacademico.com.br/038/38cult_poesia.htm)

O colega não me explicou qual era o objetivo do trabalho e imagino que nem ele lembra! O jovem propôs um novo fim para o poema acima descrito com a seguinte estrofe:
"Parado não fiquei
O governo , a sociedade não culpei
fui lá em casa e a comida peguei
e ao homem-bicho desgraçado entreguei"
O jovem ficou incoformado com o final descrito por Manuel Bandeira e buscou solucionar a fome do homem-bicho buscando um alimento para o mesmo. Porém o mais interessante deste antigo trabalho escolar vem agora! O jovem poeta reescreve o poema sob o ângulo do homem bicho do eu lírico de Manuel Bandeira. Vejamos:


"O BICHO (O OBSERVADOR)

(Ticiano Alves e Silva) (Há aproximadamente 10 anos)


Ontem, a noite, eu estava
No vazio da praça
Catando comida na lixeira
Quando eu achava alguma coisa
Não examinava com cuidado
Para a sobrevivência, guardava num saco
Havia um bicho
Na escuridão, parado a me olhar
Não era um cão
Não era um gato
Não era um rato
Também não era um homem
Apesar de falar
e sobre duas patas andar
Pois se fosse, daria-me um pão com água"
No final do trabalho o jovem ainda faz o seguinte comentário : "Para o bicho-homem do poema de Bandeira, o cidadão que o vê com estranheza e comoção e nenhuma providência toma para ajudar também é um bicho: um bicho - supostamente humano".

Veja o inconformismo do jovem diante da inatividade do observador do bicho-homem! Ele então inverte as posições e transforma o observador, que nada faz para matar a fome do "homem", em um "bicho" que fica inerte enquanto o "humano" cata comida entre os detritos.
O poema de Bandeira, escrito há mais de 50 anos, permanece atualíssimo e escancara o escândalo que é o problema da fome. Por seu turno, o poema de Ticiano e a sua proposta de "final feliz" para o "bicho-homem" revelam a inoperância e o descaso dos que vêem o problema da fome de frente e nada fazem para solucionar ou ao menos amenizar a situação.
Muitos se chocam com o holocausto hitleriano, muitos se chocam com as Guerras Civis, muitos se chocam com o Terrorismo, muitos se chocam com o "Caso Isabela", com o "Caso do Menino João Hélio" e infelizmente muito poucos se chocam com a fome que assola os menos desfavorecidos.
Termino com um trecho do livro de Melhem Adas ("Fome - Crise ou Escândalo" ,Ed. Moderna. 1988.), concitando todos a refletirem um pouco mais sobre o problema da fome e insistindo para que não continuemos a exercer o papel passivo de "Bicho Observador".


"É PRECISO QUE NOSSO SANGUE SE INFLAME

E QUE NOS INCENDIEMOS

PARA QUE OS ESPECTADORES SE COMOVAM

E O MUNDO ABRA ENFIM OS OLHOS

NÃO SOBRE OS DESPOJOS

MAS SOBRE A CHAGA DOS SOBREVIVENTES"

(Kateb Yacine"